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Dinâmica Molecular de Biomolécula (PDB: 1S0Q) em água

O objetivo deste tutorial é simular a enzima digestiva tripsina pancreática bovina em uma caixa cúbica com água sob condições de 298 K e 1 bar.

Explore, colabore e estude! Dúvidas: patrick.faustino@unesp.br

Índice

Arquivos iniciais

Para iniciar a simulação, obtenha os arquivos de topologia (campos de força), as coordenadas iniciais da biomolécula e os parâmetros de entrada para a dinâmica molecular.

Utilize a estrutura da 1S0Q com o código 1S0Q do PDB, que possui uma resolução de 1,02 Å. Dê preferência a estruturas com resolução cristalográfica inferior a 2,5 Å, pois isso garante uma geometria molecular mais confiável e detalhada, o que é fundamental para a qualidade da simulação. Uma resolução menor proporciona maior detalhamento cristalográfico.

Acesse a página da estrutura no PDB (Protein Data Bank) para uma análise aprofundada. Para garantir maior precisão e realismo, explore os detalhes complementares da estrutura. Verifique o método experimental usado para sua obtenção, a presença de ligantes, possíveis modificações estruturais e os estados de protonação dos resíduos. Você também pode obter estruturas do AlphaFold.

A preparação rigorosa de uma estrutura cristalográfica é uma etapa crítica antes de simulações ou docagem, onde a reconstrução de resíduos faltantes — utilizando bibliotecas robustas como o Modeller ou servidores web rápidos como o SWISS-MODEL — é essencial para evitar o colapso do modelo e garantir a integridade física da cadeia polipeptídica. Paralelamente, o ajuste preciso do pH, que pode ser feito pelo servidor H++ ou por ferramentas de linha de comando como PROPKA, possui extrema importância por determinar o estado de protonação correto dos aminoácidos tituláveis; ignorar essa etapa resulta em atribuições de cargas elétricas erradas, o que distorce completamente as interações eletrostáticas, a formação de pontes de hidrogênio e a estabilidade conformacional de todo o sistema durante o estudo computacional.

tripsina pancreática bovina

PDB 1S0Q, Tripsina Pancreática Bovina. O VMD (Visual Molecular Dynamics) possui esquema de cores para estruturas de biomoléculas: 🟣 violeta para alfa-hélices; 🟡 amarelo para beta-folhas; 🔵 azul para Hélices 3-10; 🔵 ciano para voltas e ⚪ branco para novelos ou cordas.

Tip

Organize seu diretório de trabalho. Crie duas subpastas: analysis, destinada aos resultados das análises, e inputs, para armazenar os arquivos de parâmetros da dinâmica molecular (.mdp).

Preparo da topologia da molécula: campos de forças

O arquivo 1S0Q.pdb contém, além das coordenadas da biomolécula, moléculas de água (HOH) e outros ligantes (HETATM). Remova esses componentes extras para evitar erros nas etapas subsequentes. Realize essa limpeza de duas maneiras: editando o arquivo manualmente ou utilizando os comandos de terminal apresentados a seguir.

grep -v HETATM 1S0Q.pdb > 1S0Q_clean.pdb

# grep -v HOH 1S0Q.pdb > 1S0Q_clean.pdb

Observe que algumas biomoléculas apresenta múltiplas cadeias, identificadas como chain A, chain B, e assim por diante.

Em seguida, escolha o campo de força e o modelo de água que serão usados na simulação:

Note

Caso utilize um campo de força externo, coloque a pasta correspondente no diretório de trabalho como <>.ff.

gmx pdb2gmx -v -f 1S0Q_clean.pdb -o tripsina.gro

# -v = verbose, para visualizar o processo.
# -f = file input, arquivo de entrada das coordenadas.
# -o = file output, arquivo de saída das coordenadas.

O programa solicitará duas escolhas em sequência. Responda a cada prompt digitando o número correspondente.

O GROMACS utiliza estados de protonação canônicos para cada aminoácido (assumindo pH neutro) e adiciona os hidrogênios correspondentes. Ao final do processo, o programa conserva a carga líquida total da biomolécula. Confirme este valor no terminal, procurando pela mensagem: Total charge in system 8.000 e.

Para visualizar no VMD, utilize:

vmd tripsina.gro

Note

Saiba mais sobre gmx2pdb.

Serão criados os arquivos: - insulina.gro = arquivo com as posições iniciais de cada átomo da biomolécula compatível com o campo de força escolhido. - topol.top = arquivo com os parâmetros necessários para as integrações e derivações numéricas. - posre.itp = arquivo de topologia auxiliar indicando os átomos com restrições por padrão.

Campo de Força Informações Modelo de água cut-off
OPLS O campo de força OPLS-AA (Optimized Potentials for Liquid Simulations – All Atom) é amplamente usado para simulações de proteínas, pequenas moléculas, solventes, lipídios, dentre outros. TIP4P recomendado, mas pode usar TIP3P. Não recomendado SPC. 1.0~1.2 nm
AMBER A família de campos de força AMBER (como amber99sb, amber99sb-ildn, amber14, etc.) é amplamente usada para proteínas, DNA/RNA e simulações biomoleculares. TIP3P ou OPC, não recomendado TIP4P e SPC. 1.0~1.2 nm
CHARMM O campo de força CHARMM (como charmm36-jul2022.ff) é extremamente detalhado, especialmente para lipídios, proteínas e açúcares, e foi parametrizado com switching functions, o que o diferencia das abordagens anteriores. TIP3P modificado, não substituir por TIP3P comum. 1.2 nm
GROMOS O campo de força GROMOS96 (como gromos54a7.ff) é uma escolha clássica para simulações de proteínas, sistemas aquosos e alguns tipos de estudos de bioenergia. Ele é o único desta lista a usar potencial truncado sem PME. SPC 1.4 nm
Modelo Tipo Descrição
SPC 3 pontos Modelo rígido, ângulo fixo de 109.47°, parametrizado para propriedades macroscópicas.
SPC/E 3 pontos Versão estendida do SPC, com correção de energia de polarização. Melhor densidade e constante dielétrica.
TIP3P 3 pontos Muito usado com AMBER e CHARMM. Simples e compatível com muitos campos de força.
TIP4P 4 pontos Inclui ponto virtual (M-site) para carga negativa fora do oxigênio, melhorando propriedades de fase.
OPC 3 e 4 pontos É o novo padrão para simulações com campos de força modernos (como AMBER), equilibrando precisão estrutural e custo.
TIP5P 5 pontos Dois pontos extra para os pares de elétrons do oxigênio. Mais preciso para estrutura tetraédrica, porém mais custoso.

Warning

Escolha o campo de força e o modelo de água com base na natureza do seu sistema e nas propriedades que você deseja investigar.

É de extrema importância o conhecimento completo sobre os formatos de arquivos utilizados pelo GROMACS. Para estudos: File formats topology e File formats.

Definindo a caixa de simulação: dimensões, solvatação e neutralização

Nesta etapa, defina a caixa de simulação e ajuste seus parâmetros, como as dimensões, a distância da biomolécula até as bordas e outras configurações relevantes para a correta montagem do sistema.

gmx editconf -f tripsina.gro -o box.gro -c -d 1.0 -bt cubic

# -c = center, para centralizar a biomolécula na caixa.
# -d = distance, distância em nm entre todas moléculas e a borda.
# -bt = box type, formato da caixa.

Escolha o formato da caixa de simulação (entre cubic, triclinic, octahedron ou dodecahedron) considerando a geometria da sua biomolécula. O objetivo é selecionar um formato que otimize o volume do sistema, reduzindo o número de moléculas de solvente. Essa otimização economiza recursos computacionais ao equilibrar o tempo de simulação e a demanda energética.

Verifique as dimensões da caixa na mensagem de saída do programa. Certifique-se de que a distância mínima entre a biomolécula e as bordas da caixa esteja na faixa de 1,0 a 2,0 nm, pois esses valores são ideais para a simulação.

Note

Saiba mais sobre editconf.

Essa função é util para converter arquivos .pdb ↔ .gro usando gmx editconf -f <file>.gro -o <file>.pdb.

Note

A tag -box pode ser utilizada para definir as dimensões da caixa de simulação. Por exemplo, ao executar gmx editconf -f insulina.gro -o box.gro -c -d 2.5 -bt cubic -box 10 10 10, obtém-se uma caixa cúbica com arestas de 10 nm. Nessa configuração, a distância da borda definida como 2,5 nm será considerada, resultando em um espaço útil de 7,5 nm para a acomodação das moléculas, garantindo o afastamento adequado entre a molécula e as bordas da caixa.

E quando não definimos -box? Nessa configuração, o algoritmo do GROMACS definirá as dimensões da caixa com base no tamanho máximo da biomolécula, acrescido da distância especificada para a borda. Essa abordagem proporciona uma margem suficiente para garantir uma dinâmica molecular segura, ao mesmo tempo em que promove o uso eficiente dos recursos computacionais.

caixa de simulação

PDB 1S0Q, tripsina em uma caixa de simulação cúbica.

Para vizualisar no VMD:

vmd box.gro

Extensions > Tk Console > pbc box -color blue

Solvatação

Em seguida, preencha a caixa de simulação com moléculas de água para solvatar a insulina. Este procedimento garante que a biomolécula fique imersa em um ambiente aquoso, simulando as condições fisiológicas necessárias para a análise da dinâmica molecular.

gmx solvate -cp box.gro -cs spc216.gro -o solvated.gro -p topol.top

# -cp = coordenates protein, coordenadas do nosso soluto (geralmente, proteina).
# -cs = coordenates solvent, coordenadas da molecula que será usada como solvente.
# -p = processing, para processar o arquivo de topologia do sistema.

O GROMACS acaba de preencher a caixa com moléculas de água do arquivo spc216.gro (compatível com o modelo TIP3P), identificando-as com o resíduo SOL. Verifique na mensagem de saída a linha Number of solvent molecules para confirmar a quantidade de solvente adicionado. O programa já atualizou essa informação automaticamente na seção [ molecules ] do seu arquivo topol.top.

Note

Saiba mais sobre solvate.

Adicionalmente, pode ser definido -box para as dimensões de uma nova caixa de simulação e -maxsol para limitar a quantidade máxima de moleculas adicionadas, útil quando existe uma concentração calculada.

Warning

Para modelos de água TIP4P, -cs utilize tip4p.gro.

tripsina solvatada

PDB 1S0Q solvatada com água modelo TIP3P

Neutralização

A etapa final na preparação da caixa é a neutralização do sistema com a adição de íons. Este passo é fundamental, pois os algoritmos da simulação funcionam com maior eficiência em sistemas eletricamente neutros. Como visto na etapa anterior, a carga total da insulina é de 8,000 e. Portanto, adicione dois cátions para compensar essa carga e zerar a carga total do sistema.

Antes de neutralizar com a função genion, é necessário gerar um arquivo binário .tpr com as informações necessárias para o processamento:

gmx grompp -v -f inputs/ions.mdp -o ions.tpr -c solvated.gro -p topol.top

# -c = coordenates, arquivo com as coordenadas do sistema.

Na tag -f está indicado o arquivo ions.mdp da pasta /inputs. Esse arquivo possui todos os parâmetros necessários para o processamento dessa etapa. Recomenda-se o estudo intensivo sobre os parâmetros desse arquivo.

Note

Saiba mais sobre grompp.

Em algumas oportunidades, o GROMACS gera warnings que devem ser verificados e, se necessário, suprimidos com -maxwarn [x], onde x é a quantidade de warnings a ser suprimidos. Novamente, revise!

O programa genion solicitará que você selecione um grupo de moléculas para substituir pelos íons. A convenção é sempre escolher o grupo de solvente (SOL). Portanto, quando solicitado, digite o número correspondente à opção SOL.

Agora, adicione os íons necessários para neutralizar a carga da caixa de simulação e garantir que o sistema seja eletricamente neutro.

gmx genion -s ions.tpr -o solvated_ions.gro -p topol.top -pname NA -nname CL -neutral -conc 0.15

# -s = submit binary, arquivo binário criado anteriormente com todas informações do sistema.
# -pname = nome do cátion(+), nesse caso NA Sódio.
# -nname = nome do ânion(-), nesse caso CL Cloro.
# -neutral = para neutralizar completamente o sistema, às vezes desnecessário.
# -conc 0.15 = concentration, define a concentração em mol/L.

Por padrão, o GROMACS adiciona íons de sódio (NA) e cloreto (CL) em quantidade suficiente apenas para neutralizar o sistema. Neste caso, considerando a carga líquida de 8,000 e serão adicionados oito íons CL ao sistema. Entretanto, ao utilizar as opções -conc 0.15 e, opcionalmente, -neutral, é possível garantir a adição de uma solução fisiológica a 0,9 % (m/m), simulando o ambiente semelhante ao sistema biológico humano, além de assegurar a neutralidade do sistema.

Na mensagem de saída, pode-se observar a mensagem Will try to add XX NA ions and XX CL ions, indicando o número de íons adicionados para atingir a concentração e a neutralidade. O arquivo topol.top é atualizado com as quantidades de ions adicionadas.

Note

Saiba mais sobre genion.

tripsina solvatada e neutralizada

PDB 1S0Q solvatada e neutralizada. Em 🔵 NA e 🟢 CL.

Minimização do sistema

O próximo passo é a minimização de energia. Este procedimento remove sobreposições entre as moléculas e garante uma configuração estrutural estável, essencial para as etapas seguintes da simulação. Para isso, execute duas ações em sequência: primeiro, gere um novo arquivo binário .tpr para a minimização; depois, execute o comando de minimização de energia com o arquivo recém-criado.

gmx grompp -v -f inputs/minim.mdp -c solvated_ions.gro -o em.tpr -p topol.top
gmx mdrun -v -deffnm em

# -deffnm = define o nome padrão de todos arquivos de entrada e saida.

A função mdrun constitui o núcleo do processo de dinâmica molecular no GROMACS. Recomenda-se simplificar os nomes dos arquivos de entrada e saída utilizando a opção -deffnm. O nome utilizado em grompp -o <name>.tpr deve ser o mesmo especificado em -deffnm, garantindo consistência entre os arquivos utilizados. Para a etapa de minimização, é adotado o arquivo de parâmetros minim.mdp, que contém os parâmetros para o procedimento de minimização.

Note

Saiba mais sobre mdrun.

Analise a energia potencial para acompanhar o sucesso desta etapa. Para fazer isso, processe o arquivo de energia (.edr) para extrair os dados em um formato gráfico (.xvg). Este procedimento é essencial para avaliar graficamente se o sistema alcançou a convergência e a estabilidade energética.

gmx energy -f em.edr -s em.tpr -o potential.xvg

Verifique na tabela o número correspondente a 'Potential' e digite-o, seguindo por um espaço e pelo número 0 (zero). Exemplo: 11 0.

Note

Saiba mais sobre energy.

Utilize o XMGrace para visualizar o gráfico:

xmgrace potential.xvg

Observe a curva no gráfico, a qual indica a minimização efetiva do sistema.

gráfico da energia minimizada

Equilíbrio NVT e NPT: termostatos e barostatos

As próximas etapas são a equilibração da temperatura e da pressão do sistema. Primeiro, ajuste a temperatura para 298,15 K (25 °C) e, em seguida, a pressão para 1 bar (0,98 atm). Essas condições visam simular um ambiente termodinâmico semelhante ao meio biológico.

NVT: ajustando a temperatura da caixa de simulação

Inicie a equilibração de temperatura (ensemble NVT), na qual o número de moléculas (N), o volume (V) e a temperatura (T) são mantidos constantes. Para esta etapa, gere o arquivo binário .tpr utilizando o arquivo de parâmetros nvt.mdp. Este arquivo contém as seguintes definições:

  • Define a restrição da biomolécula, com define = -DPOSRES.
  • Define o tempo para o ajuste da temperatura, em nsteps = 50000 x 0,002 (dt) = 100 ps.
  • Define o algoritmo para o ajuste da temperatura, em tcoupl = V-rescale.
  • Define os grupos para o ajuste da temperatura, com tc-grps = Protein non-Protein.
  • Define a constante de acoplamento da temperatura, com tau-t = 1.0.
  • Define a temperatura de referência, em ref-t = 298.15.

Algumas considerações específicas:

  • Restrições de Posição: Utilize restrições de posição para manter os átomos pesados da proteína (não-hidrogênios) "congelados" em suas posições iniciais. Esta técnica é crucial para permitir que as moléculas de água se acomodem e relaxem ao redor da proteína sem desestabilizar a sua estrutura. O arquivo posre.itp define a força máxima dessa restrição (padrão de 1000 kJ/mol/nm). Se um átomo sofrer um choque muito forte, a restrição permite que apenas ele se mova ligeiramente para aliviar a tensão, preservando a estabilidade do resto da molécula.

  • Grupos de Temperatura (Termostato): Separe o controle de temperatura em dois grupos com o parâmetro tc-grps = Protein Non-Protein. Esta abordagem aumenta a precisão e a eficiência do controle de temperatura. Ela permite que o termostato meça e ajuste a temperatura da proteína e do solvente de forma independente, corrigindo as variações térmicas de cada componente com maior acurácia.

  • Constante de Acoplamento da Temperatura (tau-t): Ajuste a frequência de atuação do termostato com o parâmetro tau-t = 1.0. Este valor, em picossegundos (ps), define a frequência com que o termostato corrige a temperatura do sistema. Mantenha tau-t na faixa de 0,5 a 1,0 ps e certifique-se de que ele seja sempre menor que a constante de acoplamento da pressão (tau-p), que será definida na próxima etapa. Atenção: Evite usar valores muito baixos para tau-t. Isso faria o termostato agir de forma agressiva, o que pode causar instabilidades e levar ao colapso da simulação ("explosão").

gmx grompp -v -f inputs/nvt.mdp -c em.gro -r em.gro -o nvt.tpr -p topol.top

# -r = restrain file, arquivo de coordenadas com as restrinções iniciais (geralmente mesmo arquivo).
gmx mdrun -v -deffnm nvt

Após a equilibração, verifique se a temperatura do sistema se estabilizou corretamente. Para isso, gere e analise o gráfico de temperatura. No gráfico, confirme se a temperatura média corresponde ao valor definido nos parâmetros e observe se as flutuações estão estáveis.

gmx energy -f nvt.edr -s nvt.tpr -o temperature.xvg

Selecione o número correspondente a 'Temperature' seguida por espaço e 0 (zero).

xmgrace temperature.xvg
gráfico da temperatura

Após 20 ps, observe que a temperatura do sistema estabilizou em 298,15 K. Caso a estabilização não seja alcançada, aumente o valor de nsteps e realiza novamente a etapa. Após a temperatura devidamente controlada, procede-se ao ajuste da pressão do sistema.

NPT: ajustando a pressão da caixa de simulação

Concluída a equilibração da temperatura, inicie a equilibração da pressão (ensemble NPT). Nesta etapa, a densidade do sistema será ajustada para a pressão correta, mantendo-se constantes o número de moléculas (N), a pressão (P) e a temperatura (T). Para isso, gere um novo arquivo binário .tpr utilizando o arquivo de parâmetros npt.mdp. Este arquivo contém as seguintes definições:

  • O algoritmo responsável por ajustar a pressão, com pcoul = C-rescale.
  • A constante de acoplamento da pressão, em tau-p = 3.0.
  • A pressão de referência, em bar, ref-p = 1.0.

Você notará que a maioria dos parâmetros para a etapa NPT é idêntica ou semelhante à da etapa NVT anterior. A principal diferença é que o tempo de simulação para a equilibração de pressão costuma ser maior. É importante destacar que o GROMACS utiliza o estado final da equilibração NVT como o ponto de partida para esta nova etapa. Esse encadeamento garante a continuidade do processo, aplicando agora as novas condições de pressão constante.

gmx grompp -v -f inputs/npt.mdp -c nvt.gro -r nvt.gro -t nvt.cpt -o npt.tpr -p topol.top

# -t = time file, arquivo com checkpoint anterior (geralmente utilizado para indicar o ponto de partida com relação a dinâmica anterior)
gmx mdrun -v -deffnm npt
gmx energy -f npt.edr -s npt.tpr -o pressure.xvg
gmx energy -f npt.edr -s npt.tpr -o density.xvg

gráfico da pressão
gráfico da densidade

Para avaliar a equilibração da pressão, evite focar no gráfico de pressão, pois suas flutuações são geralmente muito altas e pouco informativas. Em vez disso, analise o gráfico de densidade, que é o indicador correto para esta etapa. No gráfico, verifique se a curva se estabiliza em um valor médio, apresentando apenas pequenas variações. Essa estabilização confirma que o sistema atingiu a densidade correta e está em equilíbrio.

A seguir, apresentamos um breve resumo dos principais termostatos e barostatos disponíveis para controlar a temperatura e a pressão em suas simulações.

Termostato Características Vantagens Limitações
Berendsen Rápido para equilibrar temperatura Simples e eficiente para equilíbrios Não reproduz corretamente as flutuações canônicas
V-rescale* Mantém temperatura média correta e flutuações realistas Estável e mais preciso que Berendsen Ligeiramente mais complexo
Nose-Hoover Mantém distribuição canônica (NVT) Correto estatisticamente Pode ter acoplamento mais lento
Barostato Características Vantagens Limitações
Berendsen Ajusta pressão rapidamente durante o equilíbrio Simples, ideal para pré-produção Não reproduz corretamente as flutuações canônicas
Parrinello-Rahman Permite flutuações de volume e forma da caixa (NPT) Correto para simulações de produção Pode ser instável sem bom equilíbrio inicial
C-rescale* Versão estocástica rigorosa de controle de pressão. Mantém flutuações canônicas corretas no ensemble NPT Produz NPT canônico exato, mais robusto e estável que Parrinello-Rahman em algumas situações Disponível a partir do GROMACS 2023, pouco testado em comparação com Parrinello-Rahman

Warning

A escolha do termostato e barostato deve considerar a natureza do sistema e as propriedades que se deseja investigar.

O GROMACS recomenda: V-rescale e C-rescale.

Tip

Verifique a performance na mensagem de saída, pode ser útil para planejar o tempo da simulação baseado no seu computador. Exemplo: 995.45 ns/day ou 0.024 hour/ns.

Produção: integradores

A etapa final é a simulação de produção. Se todos os passos anteriores foram concluídos sem erros, seu sistema foi preparado corretamente e a simulação de produção tem grandes chances de ser bem-sucedida. Durante a execução, que pode ser longa, monitore a carga de trabalho (CPU/GPU) e a temperatura do seu computador, pois problemas externos de hardware ou software ainda podem interromper o processo.

Inicie a simulação de produção. Primeiro, gere o arquivo de entrada binário (.tpr) com base no arquivo de parâmetros md.mdp. Logo depois, inicie a simulação final de dinâmica molecular executando o comando a partir desse arquivo .tpr.

gmx grompp -v -f inputs/md.mdp -c npt.gro -t npt.cpt -o md_5ns.tpr -p topol.top

gmx mdrun -v -deffnm md_5ns
Pontos importantes sobre os parâmetros da simulação de produção:

  • Remoção das Restrições de Posição: Diferentemente das etapas de equilibração, remova todas as restrições de posição da biomolécula. Agora que o sistema está equilibrado, o objetivo é permitir que a molécula se mova e se comporte livremente, sob a influência apenas das forças físicas do sistema. É nesta fase que observamos a dinâmica "natural" da biomolécula, o que caracteriza a simulação de produção.

  • Seleção do Integrador (integrator = md): A escolha do algoritmo (integrador) que calcula o movimento dos átomos é crucial. Para simulações de produção padrão, utilize o integrador md. Este integrador, que implementa o algoritmo Leap-Frog, é altamente eficiente e otimizado no GROMACS para performance e precisão. Embora existam outros integradores, como o sd (Dinâmica Estocástica), eles são geralmente aplicados em contextos específicos, como cálculos de energia livre.

Integrador Características Vantagens Limitações / Quando evitar Uso típico
md* Leap-frog Verlet. Passo de tempo curto (1–2 fs). Conserva bem energia e momento. Robusto, padrão, eficiente. Velocidades não coincidem com posições. Produção em proteínas, membranas, solventes.
md-vv Velocity-Verlet. Calcula velocidades no mesmo ponto que posições. Melhora cálculo de velocidades. Pouco ganho em muitos casos. Transporte, difusão, análise energética.
md-vv-avek Velocity-Verlet com controle de energia cinética média (AVEK). Temperatura estável sem termostato. Mais pesado; pouco usado. Equilíbrios longos sensíveis a flutuações.
sd Dinâmica de Langevin (stochastic). Força de fricção + ruído gaussiano.. Excelente controle térmico. Distorce dinâmica real em excesso. Sistemas viscosos, líquidos iônicos, membranas.
bd Dinâmica Browniana (Langevin overdamped). Ignora momento, apenas difusão. Simples e estável. Perde informação de movimento rápido. Difusão lenta, modelos grosseiros (CG).
steep Minimização por gradiente descendente. Desce na direção de maior inclinação. Rápido para remover contatos ruins. Convergência lenta perto do mínimo. Pré-MD, relaxamento inicial.
cg Minimização gradiente conjugado. Mais eficiente que steep. Menos robusto no início. Refinar após steep.
l-bfgs Minimização quasi-Newton. Muito rápido em sistemas pequenos. Ineficiente em sistemas grandes. Clusters ou moléculas pequenas.

Note

O GROMACS salva checkpoint da dinâmica molecular a cada 15 minutos em um arquivo .cpt. Esse tempo pode ser alterado com a tag -cpt [x].

Caso sua simulação seja interrompida por algum problema, retome-a a partir do último ponto salvo (checkpoint). Para fazer isso, adicione a flag -cpi ao seu comando mdrun, especificando o nome do arquivo de checkpoint:

gmx mdrun -v -deffnm md_5ns -cpi md_5ns.cpt

# -cpi = checkpoint, arquivo com o ultimo estado salvo (backup).

Para estender o tempo de uma simulação que já foi concluída, acrescentando mais tempo:

gmx convert-tpr -s md_5ns.tpr -extend 5000 -o md_10ns.tpr

# -extend = indica o tempo, em ps, a ser acrescentado.
gmx mdrun -v -deffnm md_10ns -cpi md_5ns.cpt -noappend
gmx trjcat -f md_5ns.xtc md_10ns.part0002.xtc -o final.xtc

Note

Saiba mais sobre convert-tpr.

Link para visualizar o video demonstrativo da dinâmica: https://youtu.be/IQGiznRc0Xo.


Resumo

grep -v HETATM 1S0Q.pdb > 1S0Q_clean.pdb
gmx pdb2gmx -v -f 1S0Q_clean.pdb -o tripsina.gro
gmx editconf -f tripsina.gro -o box.gro -c -d 1.0 -bt cubic
gmx solvate -cp box.gro -cs spc216.gro -o solvated.gro -p topol.top
gmx grompp -v -f inputs/ions.mdp -o ions.tpr -c solvated.gro -p topol.top
gmx genion -s ions.tpr -o solvated_ions.gro -p topol.top -pname NA -nname CL -neutral -conc 0.15
gmx grompp -v -f inputs/minim.mdp -c solvated_ions.gro -o em.tpr -p topol.top
gmx mdrun -v -deffnm em
gmx energy -f em.edr -s em.tpr -o potential.xvg
xmgrace potential.xvg
gmx grompp -v -f inputs/nvt.mdp -c em.gro -r em.gro -o nvt.tpr -p topol.top
gmx mdrun -v -deffnm nvt
gmx energy -f nvt.edr -s nvt.tpr -o temperature.xvg
xmgrace temperature.xvg
gmx grompp -v -f inputs/npt.mdp -c nvt.gro -r nvt.gro -t nvt.cpt -o npt.tpr -p topol.top
gmx mdrun -v -deffnm npt
gmx energy -f npt.edr -s npt.tpr -o pressure.xvg
xmgrace pressure.xvg
gmx energy -f npt.edr -s npt.tpr -o density.xvg
xmgrace density.xvg
gmx grompp -v -f inputs/md.mdp -c npt.gro -t npt.cpt -o md_5ns.tpr -p topol.top
gmx mdrun -v -deffnm md_5ns


Boas simulações moleculares!


Preprint e publicação relacionada

Este tutorial também serve como material suplementar do artigo relacionado a esta dinâmica molecular.

Em construção

Preprint e publicação serão adicionados aqui assim que disponíveis.

Como citar

FAUSTINO, P. A. S. Documentação sobre Química Biofísica Computacional. [S. l.]: Zenodo, 2026. DOI 10.5281/zenodo.22729510. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.22729510.